Na dança, nem todos os movimentos exigem um par. Podemos dançar ao ritmo da música, mesmo sozinhos, e há passos que até se aprendem melhor assim: momentos em que é preciso sentir o espaço à nossa volta e descobrir o próprio ritmo antes de nos juntarmos a alguém. Na vida acontece algo semelhante: cada um vai descobrindo os seus passos, sem precisar de companhia para que a dança faça sentido.
Mas, em datas como o São Valentim, essa liberdade de movimentos parece mais difícil de sentir, e de sustentar.
De repente, toda a gente à nossa volta surge em pares, a celebrar o amor romântico, e até quem está bem sozinho sente um aperto silencioso, como se também fosse suposto dançar com alguém. Chamamos-lhe Dia dos Namorados, mas, na verdade, a figura histórica de São Valentim nunca esteve associada à celebração do amor romântico. Ainda assim, séculos depois, o seu nome acabou por dar origem a um dia repleto de jantares, prendas e corações por todo o lado.
Basta pensar nos filmes que víamos a crescer, ou nas séries que vimos no último fim de semana: os pares amorosos surgem sempre na altura certa, num café, numa biblioteca, ou a tropeçar em algo que muda a vida toda. Até mesmo quem jurava que não queria apaixonar-se… surpresa: acabava por encontrar alguém antes dos créditos finais. Aprendemos desde cedo que o amor romântico é mágico, inesperado e transformador – e que estar sozinho parece, de alguma forma, um problema a resolver.
Há uma metáfora que Daniel Sloss explora no seu especial de comédia e que traduz bem esta narrativa. Conta que o pai comparava a vida a montar um puzzle só que, sem a imagem da caixa, ninguém sabe ao certo qual é a figura que estamos a tentar construir.
Como em qualquer puzzle, começamos pelos cantos: peças diferentes, fáceis de reconhecer e de encaixar primeiro.
Na vida, esses cantos podem ser o trabalho, os amigos, os hobbies, os valores… Depois sobra o centro. E é fácil acreditar que essa parte só faz sentido se for ocupada por um par amoroso, como se sem ele tudo ficasse incompleto mas, tal como num puzzle, nem sempre precisamos de uma única peça para completar a imagem.
Ainda, a orientação vocacional permite a aprendizagem de competências-chave: a procura proativa e autónoma da informação, o aprofundamento, a análise crítica ou a fundamentação de decisões, integrando-as de modo intencional e consistente no projeto de desenvolvimento pessoal.
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Talvez por isso gostemos tanto da narrativa do encontro ao acaso. Ela promete alívio: a sensação de que alguém virá preencher o espaço vazio. Mas, como lembra Irvin Yalom, o desejo de plenitude através do outro é natural, mas ilusório: o vazio não desaparece magicamente ao encontrar alguém: integra-se quando reconhecemos e valorizamos as nossas próprias peças. E quando o encontro perfeito não acontece, não sentimos apenas ausência de relação; sentimos que algo em nós ainda está por descobrir. E isso não é um problema: o puzzle continua a construir-se, peça a peça.
E, nesse ritmo, a dança continua. Há espaço para saltos, desequilíbrios, passos improvisados e gargalhadas pelo caminho. O puzzle vai-se compondo aos poucos, e a música nunca para. A pista nunca é só nossa por muito tempo, mesmo quando a dança não é a dois.

